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RELAX: Um pouco de Anantha*


Recordei-me, nem sei por que, e contei para ela — precisava testá-la, conhecer dela a madureza, o caráter — a história de um amigo de infância, o Edson. Era filho de um casal de pretos pobres. O pai, pedreiro; a mãe, lavadeira de roupas. Moravam a poucas casas da nossa, lá em Barreiras. Adorava ler gibis. Três anos mais velho que eu, mas o desenvolvimento intelectual retardara. Uma vez, estávamos nas estripulias no fundo do quintal. Cavávamos um buraco para tentar pular do balanço dentro dele, em cima de almofadas que, estrategicamente enfiadas na garganta da cavidade, amortecer-nos-ia a queda. Acreditávamos piamente em nossa engenharia, a abertura alcançaria mais de três metros. O balanço amarrado no pescoço da goiabeira envergada (estranha árvore, de frutos vermelhos povoados de bichos alvos, e torta: fora palco de meus testes no aprender a arte de trepar goiabeiras, coqueiros, frondosos pés de juá e mesmo arredios laranjais). Contudo, demoramos cerca de duas longas horas, debaixo do estúpido sol baiano, no revolver com a enxada enferrujada meio metro da terra vermelha. Suado, chamei-o para almoçar, pois minha avó gritara lá do alpendre que a comida esfriava na mesa. Ele fez que não com a cabeça, envergonhado. Insisti. Disse que me esperaria, que eu fosse. Pois fui, com a fome reluzente e gritante dos dez anos; almocei, refestelei-me na cadeira de tiras plásticas e lá fiquei lendo um Recruta Zero emprestado. Quando dei por mim, duas horas e um Fantasma e um Mandrake depois, corri para o quintal: lá estava o Edson, de cócoras, a me esperar, quieto, vigiando o buraco.

Mais sustos nos pregaria o Edson, porém. (Deixei para contar-lhe outra hora, Anantha, acerca do fim trágico que teve meu amigo, e as peripécias por que passou, somadas à terrível sexta-feira da paixão, quando o pai tomou-o para cristo, rigorosamente falando, e não teve centelha que fosse de paciência com o filho — tentou, antes, extraindo-lhe gotas de sangue da pele negra, com as afiadas pontas do arame com que lhe amarrara os braços e os tornozelos, dar-lhe algo de razão. impossível, vez que meu amigo sofria de invulgar deficiência mental, que o privara de viver neste mundo como todos os supostos normais que somos.) Emocionado, acelerei o carro e troquei o CD, a fim de encurtar a conversa, que prometia alongar e, talvez, chatear Anantha.

* novela que publiquei em 2004, em sete capítulos, na revista eletrônica PD-Literatura. Leia outros trechos no blog A Novela X.

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